Mídia em debate: pelo direito humano à comunicação


QUEM ACREDITA NA RETRATAÇÃO DA GLOBO?

No início dos anos 2000, empresas de todos os portes perceberam a importância da internet e lançaram seus sites corporativos. Em muitos casos, a empreitada virtual se transformou em um problema. As empresas investiam na construção de sites, mas não montavam equipes para atualizar e gerenciar esses espaços. As empresas não entendiam a internet como uma filial virtual. Tratavam o assunto como a produção de um folder institucional: bastaria criar, imprimir e entregar os folhetos para clientes e/ou interessados. Para algumas corporações, esses tropeços no mundo virtual persistem. Ainda não conseguem interagir de maneira eficiente com os clientes em seus próprios sites e, principalmente, nas redes sociais.

A mídia tradicional também passa por esse processo de aprendizado. Enquetes e produção colaborativa de conteúdo são comuns nos principais portais, mas, quando o assunto esbarra em questões editorias das páginas jornalísticas, a situação muda de figura. Por exemplo, a Globo encerrou suas atividades no Facebook, recentemente, para não se ver obrigada a interagir e a responder a críticas.

Mais de uma vez, recorri ao espaço “fale conosco” do Jornal Nacional e da revista Época para fazer reclamações acerca do conteúdo publicado. Nunca obtive qualquer resposta, além da automática: “Respeitamos sua opinião e crítica. Suas considerações serão levadas ao conhecimento da direção do programa”. É evidente a incapacidade – ou desinteresse – para interagir com um novo segmento de público que descobriu que a internet não serve apenas para entretenimento. São internautas que não se limitam ao papel de consumidores passivos de mídia: querem interagir, opinar, criticar e produzir conteúdo.

A incapacidade da mídia para interagir pode ser resultado de mais de  quatro décadas em que as empresas se especializaram na construção de verdades convenientes aos interesses comerciais e políticos dos seus controladores. Cabia ao público apenas consumir a aceitar as verdades impostas pela mídia, até porque não havia mecanismos de interação e o alcance das fontes alternativas de informação era muito pequeno. Estabeleceu-se uma ditadura da mídia. “A mídia pode prestar-se para reforçar o poder de interesses particulares e exacerbar desigualdades sociais, ao excluir vozes críticas ou marginalizadas. A mídia pode até promover o conflito e a segregação social”, alerta a ONU.

A cobertura dos atos, crimes e violações de direitos humanos durante a ditadura militar, produzida pelas Organizações Globo, seguiu esse modelo: ”Congresso elege Médici”, foi a manchete de O Globo, em 25/10/1969. No editorial do mesmo dia, lia-se: “Com a eleição de hoje revigora-se o processo de normalização da vida institucional do país. (...) O Brasil reingressa no Estado de direito. Trata-se de um acontecimento auspicioso”. Cabe lembrar que naquele ano a ditadura endureceu contra os opositores e que a eleição era indireta.

Considerando o histórico antidemocrático do jornal O Globo, vejo com muita reserva o editorial publicado, em 31/08/2013: “Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país. À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

Não vejo a retratação de O Globo como um fato espontâneo ou mesmo sincero. Entendo como uma tentativa desesperada para evitar protestos e melhorar a imagem institucional. Desde junho, quando se multiplicaram os protestos populares, as Organizações Globo tem sido alvo de críticas, denúncias, ataques e investigações.

Acostumada a não dar satisfações a ninguém, a estabelecer verdades tortas e a conduzir a opinião pública, até hoje, as Organizações Globo nunca se submeteram aos legítimos interesses da sociedade, bem distintos dos interesses da empresa que se tornou uma megacorporação à custa do apoio incondicional ao golpe militar de 1964 e à ditadura que se seguiu por duas décadas.

Mais importante do que o arrependimento confessado, seria uma mudança na linha editorial dos veículos das Organizações Globo. Afinal, o grupo segue defendendo os interesses da mesma elite (política e empresarial) que apoiava em tempos de militarismo, em detrimento da função social da mídia, que deveria ser prezada por todas as empresas de comunicação. Outra forma de demonstrar que é um arrependimento legítimo, seria dedicar espaço nos veículos e recursos financeiros para ajudar a combater a desigualdade social no Brasil, ampliada e multiplicada durante os 21 anos de ditadura, bem como para promover os direitos humanos.

A Globo poderia atuar também para combater o analfabetismo político construído pela ditadura e mantido com apoio da mídia. Essa seria uma grande ação em defesa da democracia que a Globo insiste em afirmar que defende. Se fosse realmente democrática, não procuraria interferir no processo político-eleitoral, agindo como um partido de oposição.

Na verdade, o objetivo das Organizações Globo é, mais uma vez, tentar construir uma versão amena – e distante da realidade – da atuação nefasta de seus veículos, nos anos de chumbo. Querem reescrever a história para que apareçam como uma instituição socialmente responsável que cometeu um erro de avaliação: “o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia”, justifica o mesmo editorial, de 1969. Papo furado. O Globo apoiou a ditadura almejando vantagens financeiras obtidas com a implantação da TV Globo (em 1965) e com a criação de uma poderosa rede nacional de emissoras de TV, desde o início, colocada a serviço dos generais e das grandes corporações.

Apesar de o jornalismo independente, exercido inclusive pelos cidadãos comuns, ser essencial para a efetivação do direito humano à comunicação – liberdade de expressão inclusive através da mídia e livre acesso à informação – não é suficiente para equilibrar forças com as corporações da mídia. Os canais de comunicação de massa também tem um papel a cumprir nesse processo.



Escrito por João Freire às 12h24
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